quinta-feira, 25 de setembro de 2014

70 x 7

Na imagem que ilustra o post aparecem Stirling Moss e Mike Hawthorn.

Não se engane com a foto.

Os dois não se gostavam.

Talvez a causa seja a forma diferente que os dois encaravam a vida.

A rivalidade nas pistas também contava.

Hawthorn gostava de chamar Moss de "carequinha".

Irritante.

Temporada de 1958.

Moss tinha três vitórias a mais que Hawthorn.

Porém o piloto da Ferrari teve mais regularidade.

E venceu o campeonato.

Em Portugal aconteceu o improvável.

Uma daquelas ações que se tornaria lenda na  Fórmula 1.

Moss liderava com facilidade e venceu a prova.

Logo atrás, faltando um quilômetro para a linha de chegada, Hawthorn perdeu o
controle do carro.

Stirling Moss olhou a situação.

Com brados, incentivou o piloto da Scuderia Italiana a retornar para a corrida
aproveitando a declividade da pista.

Hawthorn voltou e conseguiu a segunda colocação.

A direção de prova queria desclassificar o ferrarista.

A manobra feita pela contra-mão era ilegal.

Moss foi em defesa de Hawthorn que assim conservou o segundo lugar.

Como disse acima, Hawthorn foi o campeão daquele ano.

Com diferença de apenas um ponto sobre Moss.

Ética, nobreza...

Realmente não sei como nomear esse tipo de atitude.

13 comentários:

Anônimo disse...

Muito interessante o episódio, Corradi. Valores que foram, de certa forma, abandonados na F1 da era moderna.

Carlos Henrique

Anônimo disse...

E curioso... no último GP, houve "jogo de equipe" para que Hawthorn marcasse os pontos necessários para o título...

Phil Hill vinha em segundo e deixou Hawthorn - que vinha logo atrás - ultrapassá-lo e assim marcar 6 em vez de 4 pontos. Foi o suficiente para o título com apenas 1 ponto de vantagem... o vencedor desse GP foi... Stirling Moss!

Hawthorn completou o GP 1 minuto e 24.7 atrás de Moss. Phil Hill veio apenas 8 décimos de segundo atrás de Hawthorn, ou seja, comboiando...

Ironia das ironias... se Hawthorn fosse desclassificado em Portugal...

Por outro lado, Moss teve mais outras 3 temporadas de F1. Hawthorn não.

um abraço,
Renato Breder

Voaridase disse...

O automobilismo dos anos 50 é excelente mesmo... Fosse hoje, gostava de ver isso!

Ron Groo disse...

Pode chamar tanto de ética quanto de nobreza, mas chame também de uma bela história.
Que é exatamente o que é.

politicamente_incorreto disse...

O Moss assim como a maioria esmagadora dos seus contemporâneos não viam nenhuma glória em "vitórias sem honra".
Sobre o conceito "vitória sem honra" poderia escrever mil páginas, acho inclusive que é o grande diferencial entre os "antigos" e os "novos" em qualquer atividade, esportiva ou não.
Aos fatos: vontade de vencer existia e ainda existe; competitividade existia e ainda existe; uma certa dose de desonestidade e um quê de "dick vigarista' existia e ainda existe. Então o que mudou?
Mudou o conceito de vitória, antes a vitória por si só não representava nada se não fosse acompanhada da honra ou então do sentimento genuíno que você ganhou porque era o melhor e não porque uma vírgula foi colocada fora de lugar. A vitória com honra era o objetivo da esmagadora maioria, hoje a maioria quer a vitória a qualquer custo.
É baseado no segundo conceito que muitos defendem que o Schumacher foi o maior piloto de todos os tempos, afinal o argumento de seus números são inquestionáveis. mas a honra.....ela passou longe de incontáveis pódios e conquistas do queixudo. E apesar da inversão de valores da nossa sociedade a grande maioria ainda vê méritos incontestáveis na honra associada a vitória, a prova disso é que apesar dos números o queixudo nunca foi unanimidade me lugar algum e por exemplo o Moss apesar da falta de títulos é reverenciado por legiões de fãs do automobilism. mesmo que 99,9% deles jamais o tenha visto correr, ponto para a honra, ela é mais perene que as vitórias.

Rubem Rodriguez Gonzalez

TW disse...

Corradi,

Parece até mentira, mas era uma época de gentlemans na F1. Atitude esta que não veríamos hoje em dia.

Hawthorn, com o título, se aposentou da categoria.

abs

Anônimo disse...

Este é um caso meio atípico, mas apesar do título de Hawthorn, Hoje Moss é mais conhecido, está vivo pra contar suas histórias, apesar de seu arrojo em pista, além disso teve até um carro de linha da Mercedes-Benz em sua homenagem.
Cadê o carro que a Ferrari fez em homenagem a Hawthorn?

Além de mais carismático, Moss era mais batalhador, prova de suas inúmeras fotos com o rosto totalmente coberto por fuligem, do tipo que levava seus carros no braço.

Popo Suko disse...

Eu diria que é melhor pessoa do que competidor.
Hoje não existe mais isso. ... Dentro ou fora do esporte.
Ótima história !

Adriano disse...

Existem homens (no sentido da honra) e pessoas normais. Moss era do primeiro time.

Alfredo Aguiar disse...

Corradi

Era tempo do preto no branco, contratos no fio do bigode, quando um garoto deixava a casa levando consigo apenas o nome de família do pai e isso lhe bastava para vencer o mundo, honrava esse nome porque ele fazia parte de seus maiores tesouros, com sua honra e caráter algo que ninguém podia lhe tirar. Hoje a imprensa come na mão dos patrocinadores. Chamam o cara de ótimo piloto, colocam no patamar dos deuses. Caráter? Coisa cafona e é assim por toda sociedade, uma sociedade que tem os prepotentes e os submissos. Subservientes que adoram chamar os arrogantes de doutor. A sede pelo brilho de um holofote é tão grande que o reflexo da luz do pulha já é suficiente para iluminar a insignificância do medíocre!!!

Anônimo disse...

E exatamente por isso que na F1 dos anos 50 e dos anos que se seguiram o esporte explodiu e ganhou a fama, exposiçao e mais historias mitologicas que nos trazem admiraçao ate hoje...

E depois que a era Schumacher começou a categoria entrou numa espiral e hoje o que se ve e um esporte artificial, entubado em um coma profundo respirando por aparelhos, e seus medicos, FIA e Bernia querem puxar o plug para ver o que acontece...

E Rubem Rodriguez, concordo em 1000% com voce...

Paulo Bala disse...

Não consigo imaginar, por exemplo, Nelson Piquet, arquétipo do jeitinho e malandragem brasileira, ou Airton Senna, cuja lema era vencer a qualquer custo, se portarem da mesma forma. No Brasil, se alguém se atrevesse a fazer tal "barbaridade" levaria o nome de otário sem noção. Lamentável.

Fabrizio Salina disse...

Histórias como esta apenas dão a dimensão da grandeza de seus protagonistas e confirmam a exceção. Quando lemos o Satiricon, os poemas de B. Brechet, escritos de outros tempos, podemos constatar que a mediocridade sempre foi a regra desde os tempos de Adão e Eva.

Para quem desconhece, sugiro dois quadros: boulevard of broken dreams (Gottfried Helnwein) paródia do Nightthawks (Edward Hopper), que nos despertam essa sensação da virtuose nostalgica.

No meu "Nightthawks", estariam Clark, Senna, Lauda e Villeneuve.