sexta-feira, 21 de março de 2014

Quebrando as regras























Ontem estava vendo a reprise de algumas etapas da Fórmula 3 deste ano.

Um dos degraus para se chegar a Fórmula 1.

Fiquei pensando como a base costuma premiar pilotos que possuem um certo estilo
de pilotagem.

Os conservadores.

Diferente da maioria eles acumulam pontos.

Evitam as confusões.

A ânsia desesperada pela vitória.

Os arroubos da juventude que na maioria das vezes termina em bobagem.

Não são impetuosos.

Preservam seu equipamento.

E assim vão herdando posições.

Ao final da temporada estão lá, no topo do ranking.

Em destaque.

Sendo cobiçados pela Fórmula 1.

Categoria que também sempre premiou essa postura.

Basta olhar os grandes campeões.

Juan Manuel Fangio, Jackie Stewart, Emerson Fittipaldi, Niki Lauda, Nelson Piquet...

Outros que sempre pilotaram no limite, mesmo sendo rápidos, acabaram por abrir mão
de títulos.

Veio na sua mente Gilles Villeneuve? Nigel Mansell?

É isso.

Mas então aconteceu a ruptura.

Veio o divisor de águas.

Apareceu um piloto que andava no fio da navalha e vencia!

Corridas, campeonatos!

Acabou com a lógica.

Ayrton Senna mudou a Fórmula 1.

Para sempre.

A categoria subiu um degrau.

Depois dele, se alguém quisesse vencer precisava fazer mais.

A zona de conforto havia terminado.

E ninguém gostou da mudança.

Para ultrapassá-lo na Hungria, Piquet teve que fazer a manobra mais linda
da história da categoria.

Fugindo de seu "Modus Operandi".

De suas linhas limpas de pilotagem.

Não havia outra maneira.

Era isso ou aceitar a derrota.

Prost, gato escaldado, usou cláusulas de contrato para evitar o embate.

O nível subiu.

O público percebeu.

E gostou do que estava vendo.

Foi assim que o cara se tornou um mito.

Não falo do Brasil.

No mundo inteiro.

Japão, Austrália, toda Europa, Estados Unidos...

Vieram então dois fatos.

A morte de Senna e a escalada de Michael Schumacher.

Somados, esses dois acontecimentos quase mataram a categoria.

As pessoas estavam mal acostumadas.

E a Era Schumacher trouxe a mesmice e o enfado de volta.

Um robô pilotando a máquina perfeita.

Uma chatice sem tamanho.

Ao final de seu sétimo título mundial apenas os viciados continuavam em
frente a TV.

Quem aguentava assistir aquilo?

Ainda bem que acabou.

Surgiram então novos rostos.

Fernando Alonso, Sebastian Vettel e Lewis Hamilton.

Pilotos que combinam a audácia com a técnica refinada.

Com eles toda uma geração de afobados.

Que ótimo!

Quando Jenson Button, fugindo de suas características, caçou Vettel no Canadá,
na temporada passada, minha mente viajou.

Fui até 1986.

Em Hungaroring.

Porque se esperasse, o inglês nunca venceria a corrida.

A Fórmula 1 voltou a respirar os bons ares da competição.

Torço para que continue assim.

Premiando a ousadia.

Deixando de lado pilotos insípidos como Bruno Senna.

Porque enquanto pudermos ver tipos como o imprevisível Pastor Maldonado
vencendo, seremos mais felizes.

26 comentários:

Eduardo Miler disse...

Só lamento não ter sobrado "uma linha" se quer para o Rubem acressentar nos comentarios...Dizer mais o que???Com palavra o Sr. Rubem!!!!!

ALEX disse...

caramba, deve ter ai uns 20 anos de história resumidos em lucidas e belas linhas!

politicamente_incorreto disse...

É Eduardo, fui "plagiado" antecipadamente" pelo Mestre Corradi, rsrsrsrsrs.

A acrescentar que eu prefiria que os bólidos de hoje em dia abandonassem definitivamente a eletronica e os aparatos em corrida.

Não, não é uma volta ao passado. absolutamente!!!!

É a volta do imponderável, do erro ou melhor; da valorização dos que possuem um feeling apurado para como disse o Corradi, poder andar no fio da navalha.

Pneus para a corrida inteira, trambulador, embreagem de verdade, volante sem assistencia elétrico hidraulica e principalmente troca de figurinhas entre piloto e o engenheiro. rádio só para segurança ou aviso de necessidade, tipo: "-furei um pneu, estou entrando nos boxes."

Adeus asa móvel, adeus pneus de farinha, adeus macaco amestrado apertando centenas de botões ao comando do engenheiro e dos computadores dos boxes.

No resto concordo com tudo, piloto que corre com o adesivo "papai não corra" no painel não deveria nem tentar as competições.


Rubem Rodriguez Gonzalez

Oscar disse...

q texto lindo corradi..muito lindo,parabens

Anônimo disse...

Excelente texto. O melhor que já li sobre a Fórmula 1 e a desgraça que a era Schumacher foi para ela. Corradi você resumiu perfeitamente a história da categoria nós últimos 25 ou 30 anos.
Rafael Tenório

André Candreva disse...

Corradi...

brilhante...

3 décadas em poucas linhas com uma clareza espetacular...

parabéns e concordo plenamente...

abs...

Paulo disse...

Para variar, uma análise lúcida dos fatos, parabéns.

Rodrigo Keke disse...

Corradi anda ainda mais inspirado do que o costume. Excelente! Uma pequena-grande anedota sobre a categoria, olhando o passado para entender o presente e projetar o futuro.

Querem saber? Corradi é o nosso Joe Saward, mais econômico nos textos porém com uma verve certeira, direta!

Anônimo disse...

Esse post os Sennistas vão ampliar e emoldurar. Com razão.


Carlos Henrique

Eugenio disse...

Mais um excelente texto, com menção honrosa para o "papai não corra" do Rubem!

Marques disse...

Sensacional Corradi. Só discordo de uma coisa: não gosto mesmo do Maldonado ahahahaha.

E.Martins disse...

Cara, que texto! Como sempre de altíssimo nível!

Rafael Schelb disse...

Bela análise, Corradi! Só faço uma ressalva: O Clark era o cara que ia além do limite e ganhava títulos, 20 anos antes do Ayrton aparecer, foi uma espécie de precursor do estilo dele...

Al Unser Jr. disse...

Esse Corradi é fera!

Anônimo disse...

Boa lembrança do Rafael Schelb.

Carlos Henrique

Humberto Corradi disse...

Rafael Schelb e Carlos Henrique

Penso que Clark está na galeria de Fangio, Stewart e Emerson.

Mas levando em consideração a época o equipamento que tinha nas mãos, talvez tenha sido o melhor de todos.

Valeu

Paulo disse...

Robô pilotando?? Sua opinião, ok, mas um sujeito que joga o carro em cima dos adversários para ganhar, não pode ser uma máquina, é um tarado por vitórias e títulos, o mais "humano" de todos!

Alessandro Seara disse...

Meu caro, só uma pergunta: onde mesmo eu assino (risos)?

Análise perfeita...

A ultrapassagem de Piquet sobre Senna, mesmo tendo ocorrido quando tinha apenas 10 anos, não sai de minha retina...

Junto, a expressão de pasmo do meu bom pai (in memorian) que como eu, ficou sem palavras com o espetáculo que testemunhara...

Por isso, Senna é o mito que é. Ele, Fangio, Clark, Stewart, Lauda... caras que marcam, pra sempre, nossas memórias.

Alfredo Aguiar disse...

Muiiito bom Corradi, inspirado!!!

Jaime disse...

Comecei a ler e logo vi que não era inédito, mas é apropriadíssimo para o dia de hoje. Novamente, belíssimo texto. Abraços, Corradi.

João disse...

Dizer que o Schumacher é um piloto que não arrisca, que não tem génio, que não é 'afoubado'.. ou pelo menos dar a entender isso, é, além de injusto e falso, uma completa heresia.

Eu também não gosto de muitos pilotos, mas isso não me impede de, não só lhes reconhecer méritos e qualidades como não me faz 'ajustar' a realidade.

De 95 a 1999 nunca teve o melhor carro, venceu um sem número de vezes, e teria sido campeão em 99 se não tem partido a perna.

Em 2000 tinha uma carro nivelado com o McLaren.

De 2001 a 2004 teve sim o melhor carro.

Vettel é, muito justamente, tetra campeão e em nenhum desses anos deixou de ter o melhor carro.

Hakkinen é Bi, sendo que a sua McLaren era de longe o melhor monolugar da F1.

Hill e Villeneuve foram campeões conduzindo a melhor máquina.

Senna foi campeão 3 vezes, e em todas elas tinha o melhor carro.

Mansell venceu num carro fabuloso.

Prost venceu 4, e somente em 1986 o seu carro não era o mais forte.

Para trás, já não tenho recordações.

Enfim, parece que só o Schumacher ganhou com carros imbatíveis...

João Correia

RenatoS. disse...

Corradi, sou seu fã! E adorei essa coragem de falar o que realmente foi a era Schumacher - uma chatice tamanha. Aliás, um desperdício de talento.

Corrida tem que ter disputa e piloto tem que ter oponentes, do contrário, vira "monólogo".

Sobre o Senna, a melhor imagem que tenho de sua pessoa, nem está relacionada a F1, mas, antes disso.

Acho que naquela disputa de Mercedes Classe E, em Nurburgring, com os grandes da F1 da época, aquele garoto franzino vindo da F3 começava a mostrar o que viria dali pra frente.

Saudades!

Diogo Oliveira disse...

Corradi,

Postou novamente este insuperável texto só porque hoje "o que mudou tudo" completaria 54 anos de vida se ainda estivesse por aqui?

Sobre este post, todas as vezes que alguém vem debater comigo sobre "quem foi o melhor", eu peço para que leiam o seu Blog, sobretudo, este post, que é esclarecedor.

Parabéns a você, por dispender parte do seu tempo com assuntos automobilísticos.

Unknown disse...

Excelente texto, ao que se menciona sobre Schumacher foi uma meia verdade. Meia, pois a "Era Schumacher" foi, em sua grande parte, monótona. Só que o piloto alemão não era. Sempre foi arrojado. É o mesmo que dizer atualmente que o Vettel não é.

Os gigantes aparecem quando não possuem o melhor equipamento e se destacam. Senna, em 93, conseguiu aliar marketing pessoal com corridas memoráveis com um motor Ford que sequer era o último modelo. Consideram que ali foi o auge dele.

Anônimo disse...

Texto clássico do blog. Definitivo.

Vicente Camara

Anselmo Coyote disse...

Em primeiro lugar:

"Fernando Alonso, Sebastian Vettel e Lewis Hamilton. Pilotos que combinam a audácia com a técnica refinada." tsc tsc tsc.

Deixe só o Alonso e o Hamilton aí, porque falar em audácia com carro até 3s mais rápido do que os outros é gozação, é estragar tudo o que foi tão bem escrito no post.

O Ricciardo mostrou isso na Austrália e o alemãozinho arrogante já abandonou a carinha de bom garoto, cara legal e tals.

Em segundo e último lugar: o Piquet só mostrou ao Senna quem é que tinha conhecimento e braço para mandar na bagaça em Hungaroring em 1986, e que gastar energia em excesso sempre, sempre e sempre foi sinal de burrice e não de inteligência.

Perguntado ao Piquet quem era o melhor, ele ou o Senna, ele simplesmente respondeu: eu estou vivo.

Abs.