segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Pastor Maldonado
























"Hoy con la mayor humildad les informo que no estaré presente a la parrilla de
salida de la F1..."

Assim Pastor Maldonado iniciou sua nota de despedida da Fórmula 1.

Ele não estará no grid de 2016 e será substituído pelo talentoso Kevin Magnussen
na Renault.

Estou monitorando o caso Maldonado a vários dias.

A melhor fonte venezuelana (quando o assunto é o Pastor) só entregou que ele se
desligaria do time francês nas últimas horas.

Até pouco tempo atrás tudo parecia bem.

O que mudou?

Para entender precisamos voltar no tempo.

Vem comigo.

No início de janeiro, Magnussen teve uma reunião com a Renault em Enstone.

Kevin foi acompanhado do seu principal patrocinador (Bestseller).

A princípio, a conversa seria para tornar o jovem dinamarquês piloto reserva
da Renault.

Não só isso.

O time francês abriu a possibilidade de Magnussen se tornar titular no próximo
ano.

Uma oferta tentadora.

Mas que deve ter causado desconfiança em Kevin por seu histórico recente
com a McLaren.

Poucos dias depois houve outra reunião entre as partes.

E a conversa mudou.

Abriu-se a possibilidade de titularidade para Magnussen, caso o piloto
dinamarquês conseguisse aumentar a proposta com seu apoiador.

Notem amigos que as tratativas sempre envolveram muito dinheiro.

Não se iludam.

Talento está em segundo lugar por aqui.

Valores?

Algo em torno de 7,5 milhões de euros.

Pouco tempo depois, Maldonado tomou conhecimento da negociação.

E comunicou tudo a PDVSA.

Uma das parcelas de patrocínio venezuelano estava atrasada.

(uma coisa comum que já havia acontecido em anos anteriores)
























Justamente neste ponto a Renault e a petrolífera venezuelana sentaram na mesa
para tratar do rompimento do contrato.

Nunca houve possibilidade de retorno.

Digo isso apesar de haver alternativas (outras estatais) no caso da Renault
querer contar com os serviços de Pastor.

Dessa maneira a Renault vai alinhar com o estreante Jolyon Palmer e Kevin
Magnussen.

Dois pilotos pagantes, que fique claro.

Mas quais seriam os motivos por trás da fabricante francesa apressadamente
abrir mão do valioso contrato com a PDVSA?

São duas as razões.

A primeira é a empresa de petróleo francesa Total.

Com a saída da PDVSA, a carenagem amarela da Renault ganhará vários
espaços vazios para patrocinadores.

E a Total deverá explorar essas brechas para aumentar sua participação.

Diferente da PDVSA que derramava 40 milhões de euros na Lotus, a Total
colocava apenas 3 milhões de euros por ano.

Esse montante deverá aumentar significativamente, assim como o aparecimento
do nome Total nos carros da dupla Magnussen / Palmer.

A segunda razão é poder.

Apesar de ter vendido o controle da Lotus para a Renault, a Genii Capital ainda
continuou com uma participação na escuderia.

Mas a venda se deu contando com o aporte financeiro da PDVSA.

Com o rompimento, a Genni Capital terá que honrar os valores perdidos.

A pressão financeira para que haja um desligamento dos antigos donos subiu.

Com a manobra, a Renault ganhou ainda mais poder e quem sabe 100% de
controle sobre o time.

Interessante.

O plano original da PDVSA era permanecer na Fórmula 1 até 2019.

Mostrando a força de Caracas.

Com Pastor, claro.

A recente crise da Venezuela e a chegada da Renault puseram uma pedra
sobre tal objetivo.

Li muitas críticas duras sobre Maldonado.

Sobre como ele não merecia estar na categoria máxima do automobilismo e
que estava ali somente pelo dinheiro.
























As pessoas esquecem que Pastor foi campeão da GP2 de forma absoluta.

E que foi cobiçado por diversas equipes da categoria máxima do automobilismo
bem antes desse título acontecer.

Quando testou pela Minardi em 2004, Pastor foi elogiado pelo lendário Giancarlo.

Minardi (conhecido descobridor de talentos) o queria em suas fileiras.

Entretanto quando outras escuderias (com mais recursos técnicos) sondaram
Maldonado, se desmanchou qualquer possibilidade disso acontecer.

Muitos ficaram surpresos quando Pastor venceu aquele GP da Espanha em 2012.

(de forma magistral, diga-se de passagem)

Porém Giancarlo Minardi não era um deles.

Outro que elogia Pastor é Xevi Pujolar, que foi engenheiro de pista do venezuelano
na Williams.

"Ele sempre foi subestimado.

Entretanto ele é rápido, se dá bem com a equipe e tem sensibilidade para dizer
o que há com o carro."

Claro que a velocidade de Maldonado é inquestionável.

E é certo que existem deficiências também.

Grandes.

A falta de evolução, como ocorreu no caso de seu ex-companheiro de equipe
Romain Grosjean, é uma delas.

Faltou o amadurecimento para auto-preservação.

Ficou a imprevisibilidade.

Enxergo a passagem de Pastor pela Fórmula 1 como histórica e marcante.

Não apenas pela sua vitória.

Ou ainda por escrever seu nome entre os raros nove pilotos que conseguiram
subir no lugar mais alto do pódio desde a temporada de 2011.

(ano de estréia de Maldonado)

O que me impressiona é fato que o venezuelano salvou duas escuderias de irem
à falência.

A primeira foi a Williams.

Quando a Philips deixou de patrocinar o time de Grove em 2010, a situação
ficou mais do que no vermelho.

A chegada de Maldonado trazendo consigo a PDVSA mudou tudo.

Frank Williams aprendeu com os erros passados (BMW, Helwett Packard) e
preparou seu time para se tornar menos dependente de uma parceria única.

Abriu seu capital, passou a vender tecnologia em diversos setores e se diversificou
industrialmente.

O período em que a PDVSA derramou a prata foi essencial para que Frank
respirasse e alinhasse sua escuderia para o futuro.

Foram trés anos.

Para sobreviver.

Se a Williams não tivesse assinado com Pastor em 2011, ela nunca poderia ter
uma promessa como Valtteri Bottas, um motor da qualidade Mercedes e ainda
conseguir dois terceiros lugares consecutivos no Mundial de Construtores nas
últimas temporadas.

E melhor, poder sonhar novamente em vencer!

A segunda equipe que deve as calças a Pastor é a Lotus.























Maldonado chegou a colocar algo em torno de 80 milhões de euros nas mãos
da Genii Capital durante as duas últimas temporadas.

Mesmo período em que Gerard Lopez (cabeça da Genii) passou a diminuir
seus investimentos na Fórmula 1.

Bernie Ecclestone ficou surpreso ao ver a Lotus viva por tanto tempo.

Como comentamos no início deste texto, o anúncio de Pastor para a temporada
de 2016 era apenas para valorizar a Lotus.

Afinal, colocar uma equipe na vitrine de vendas com um patrocinador como a
PDVSA deveria atrair um comprador com certeza.

E atraiu.

O cenário hoje mostra duas boas escuderias no grid graças a Pastor.

A Williams como a melhor equipe cliente e com a ambição de se tornar campeã
nos próximos anos.

E a Renault que retorna com seu time de fábrica almejando o topo e balançando
o mercado ao caçar abertamente pilotos como Fernando Alonso.

Por fim.

É uma pena perder uma figura como Maldonado.

Apaixonado, autêntico, irado.

Que desperta sentimentos reais.

Que faz acreditar que poderíamos também ter ganho uma corrida na categoria
máxima do automobilismo.

O que me vem a mente?

Mansell, Montoya...

Doidices.

Algo colorido entre tanto branco, prata e preto.

Um latino.

Genuíno.

Imperfeito.

Como definiu, na mosca, Pino.

"Ele dirige um fórmula 1 como se tivesse acabado de roubá-lo!"

Ruim?

Incompreendido?

Bom?

Quem somos nós para julgar?

Aquele que nunca errou ao volante, que atire a primeira pedra!















18 comentários:

Anônimo disse...

Concordo!

Lamento ver o Maldonado fora da F1.

Em tempos de tanta mesmice e frescuras,um cara como Maldonado tinha seu valor.

Acho que pesou também a péssima temporada que fez em 2015.
Como vc disse,pareceu que Maldonado não evoluiu.

Agora,perder a vaga pro Magnussen tudo bem,o filho do Jan é talentoso e bom piloto.

Mas ver o Jolyon Palmer guiando um carro que poderia ser seu é complicado...

Arthur Simões

Daniel Chagas disse...

Eu sou um dos que sempre o criticaram. Mas realmente Pastor tem um Q de romantismo, de ter paixão ao volante, enfim, atributos que não vemos nos pilotos que julgamos ser mais talentosos. Maldonado é o exemplo clássico de que ser veloz não é o bastante para permanecer na categoria, precisa-se também de constância, inteligência, maturidade entre outras coisas mais que convenhamos ele não tinha, ele é uma pedra bruta que não conseguiu ser lapidada. Mas acho que no fim vai ficar a imagem de uma cara legal e veloz (atrapalhado) mas que somou alguma coisa para a f-1. E nada impede que ele volte em 2017. Vamos esperar as suas opções de carreira agora.

Marcos José disse...

Hoje sem dinheiro você não corre em lugar nenhum por mais que você tenha talento...as pessoas hoje reclamam dos atuais "pilotos pagantes"...e nos anos 60,70,80,90 não eram diferentes dos atuais...só que hoje o "valor" pra correr não é mais o mesmo do que era nestes "anos dourados" da F1 pra "maioria"...vejam os pilotos pagantes destes anos e compare com os atuais; o que foi que mudou?? Os "valores"...a PDVSA como qualquer outra empresa não aceitou o que a Renault pediu "a mais" para garantir Maldonado na equipe!! O ciclo sempre continuará...

fabehr disse...

mandou bem mais uma vez na sua análise Corradi, vlw!

E a F1 ficará mais previsível sem Pastor no grid....

David Félix Krapp disse...

Corradi, sou obrigado a discordar...

Maldonado jamais mereceu uma vaga na F1, em equipe grande e com tradição como Williams e Lotus então nem se fala...

O maior mérito do cara de acordo com suas próprias palavras foi ter dinheiro...

E explico por que discordo, por que Maldonado não era como o leão Mansell, aguerrido, porém azarado, ou como Montoya, que pra mim ele sim sempre foi incompreendido, único de sua geração a peitar Schumacher de verdade e impaciente e cansado da politicagem, preferiu mandar F1 as favas...

Maldonado não merecia estar na F1 ou até mesmo ter super-licença ou vencer de forma suspeitíssima (uma incrível coincidencia ele vencer no aniversário do Frank e aniversário de não sei qtos gps sem vitória, eu não acredito em tantas coincidencias juntas, me perdoe...) e explico por que:

Eu não esqueci... não esqueci a morte do fiscal de pista atropelado em Monaco em 2005 na disputa da prova em que durante a bandeira amarela, Maldonado de forma imprudente tentou trapacear e ganhar tempo... e a verdade é que ele só não foi banido do automobilismo por causa de seu excesso de dinheiro...

Me perdoe Corradi, Mansell e Montoya jamais foram responsáveis diretos pela morte de outra pessoa, Maldonado foi... não há comparação...

Honestamente, já vai tarde

Anderson Lopes disse...

Corradi, pega o tocantins para vc, palmas é pouco!!!

Fabrizio Salina disse...

Texto definitivo.

Quando olhamos com atenção para os anos 80 e início dos 90, vemos muitos pilotos que não foram pagantes, mas com nível técnico bem inferior ao de Pastor.

Fidel Miño disse...

Ficamos sem o Ed Wood da F1...

Anônimo disse...

Recente crise? A Venezuela ta em estado de emergência, o povo não tem nem o que comer... aliás coisa possível de ser ver por aqui... no meu entendimento BR e BB ja deveriam ter desembarcado da williams e da Sauber respectivamente...

Felipe disse...

Faço das palavras de Massa as minhas: "Quando ele estava no dia dele, ninguém pegava! Sempre foi muito rápido, e naquele dia em Barcelona era o dia dele!"

E quando a disputa de posição é com ele, garantia de entretenimento nesse mundo chato da F1 atual.

Luis Vieira disse...

Era um piloto diferente, vou lembrar dele com saudade, como hoje lembro do De Cesaris ou do Sato, por exemplo. Gostei muito da sua análise Corradi, achei até mesmo "corajosa", pois não é fácil apontar também para as qualidades do piloto venezuelano. O dinheiro da estatal venezuelana deu ao esporte o espaço para um ídolo diferente, certamente também deu ao povo venezuelano um motivo de orgulho, algo difícil de imaginar na F1 de hoje. Um piloto de um país subdesenvolvido tendo lugar numa equipe média, chegando a vencer um GP! Qual a probabilidade de num futuro próximo algum outro piloto de um país pobre conseguir algo semelhante?

Fábio de Souza Pereira disse...

Parabéns mais uma vez pelo texto onde os comentários se encaixam perfeitamente, a melhor análise que lí sobre o que o Pastor significou para as equipes Williams e Renault e seu perfil.
Definitivamente parecia que tinha acabado de roubar um carro.
Podemos juntá-lo a Brambilla('70), de Cesaris('80 e'90) e Takuma Sato('00)?

Eduardo Casola Filho disse...

Acho que o ciclo do Maldonado encerrou-se no momento certo. A carreira dele foi bem controversa, mas ele foi um nome importante para a F1. E vale lembrar que ele tem mais vitórias na Williams que o clã Senna, por exemplo...

De qualquer forma, um piloto doido como ele fará falta ao grid atual. Ainda acho que o Gutierrez pode fazer um "trabalho à altura", ou talvez o Lance Stroll, o futuro da Williams...

Voltando ao Maldonado, o venezuelano será marcado para sempre na F1, queiram ou não. Não no mesmo patamar de Montoya e de Mansell, mas o colocaria no mesmo nível de Vittorio Brambilla e de Andrea de Cesaris: rápidos, até com algum talento, mas bem estabanados.

Jeferson Araujo Pereira disse...

Maldonado será lembrado - sempre - como um piloto que causou e/ou envolveu-se um número absurdo de acidentes.Esse será o seu legado.

Gostaria de comentar a primeira foto,pois há uma semelhança com a primeira vitória do Barrichello: quando o Rubinho venceu pela primeira vez, Hakkinen e Coulthard o colocaram em seus ombros.Acredito que isso deva ter ocorrido com outros pilotos quando venceram pela primeira vez, mas não lembro de imagens, não lembro de fotos de outros pilotos nessa situação.Bem, eu já sou idoso e minha memória está com o carburador sujo.Em tempo: não sou fanático pelo Rubinho.Apenas fiz uma associação entre as duas fotos.

Eugenio disse...

Gostei muito da análise. Era o ponto fora da curva, o imprevisível.

Tiago disse...

O que vou lembrar de maldonado;

-A primeira vitória mais sólida que já vi, como se já tivesse feito isso antes.

-Fibra de carbono voando

-O desespero no funeral do antigo rival

-Fibra de carbono voando

-Emburrado em 2015

-Fibra de carbono voando


Eu vou sentir falta do piloto. Na F1 nem dinheiro com algum talento é o suficiente às vezes.

David Félix Krapp disse...

Desculpa Corradi e demais leitores...

Fico meio confuso com o post e as reações de voces... sigo a F1 no Instagram e 90% das reações foram de alívio da saída de Maldonado, outro blog que sigo, do Flavio Gomes também teve o mesmo rumo... no blog WTF1 uma enxurrada de comentários e até um meme pra tirar sarro... só aqui vi admiração pelo Maldonado... não consigo entender isso... tá, como Piquet disse, ele era mais um idiota veloz... mas o mundo tá cheio de pessoas assim em rachas e afins, não é motivo pra se admirar o cara... fora que o cara matou uma pessoa... pesquisem, ele havia sido banido de entrar em Monaco, não fosse o excesso de grana... não sei...

Por mais que fosse "legal" os safety cars que ele causava, não vou sentir falta dele... e não consigo acreditar honestamente que alguém vá...

Társio disse...

Corradi e amigos, Feliz 2016!

Maldonado perdeu sua chance na F1. Teve 4 anos para provar seu valor, 2 equipes médias diferentes para mostrar resultados e um belo "dote" que lhe deu suporte pela PDVSA.

Muricy Ramalho já diz sabiamente, a bola pune. A regra aqui se aplica.

Na F1 não sao admitdos "erros a longo prazo". Independente do dito talento, velocidade, é necessário ser constante na F1. Só assim se faz dinheiro no mundial de equipes. O dinheiro que o Pastor trouxe às equipes pelo patrocinio, ele fez as equipes perderem com prejuizos em danos & pontos perdidos no mundial.

Ah, mas a vitória em 2012 na Espanha? É importante lembrar que aquele final-de-semana era aniversario de 70 anos de Sir Frank Williams, e aquele carro era um carro médio, nao era um vencedor. Nada me convence que aquela vitória não foi um premio de honra ao mérito ao Frank, dada à Williams por todo o circo da F1. Maldonado só pode ter corrido com o peso abaixo das regras aquele dia... Aquela vitória ocasional até poderia ter ocorrido sob certas circunstancias, mas a Williams 2012 com Maldonado não era em condição alguma mais rapida numa volta lançada (pole) que a Ferrari de Alonso, a Red Bull de Vettel ou a McLaren de Hamilton.

Na saída dele da F1, tem 1 fator que eu não entendo. A saída dele da Lotus/Renault ok, eles tem outros planos. Mas SE a PDVSA tivesse interesse em continuar esta parceria, ele conseguiria vaga em outra equipe em razao do patrocinio. Se não conseguiu é porque nem mesmo a PDVSA tem planos para o Pastor.

E por favor win or wall não é o caso aqui. Montoya, Mansell ou mesmo Massa tiveram belos momentos, além de seus erros. Para o Pastor menos por favor, muito menos...

Abç
Tarsio