"Hoy con la mayor humildad les informo que no estaré presente a la parrilla de
salida de la F1..."
Assim Pastor Maldonado iniciou sua nota de despedida da Fórmula 1.
Ele não estará no grid de 2016 e será substituído pelo talentoso Kevin Magnussen
na Renault.
Estou monitorando o caso Maldonado a vários dias.
A melhor fonte venezuelana (quando o assunto é o Pastor) só entregou que ele se
desligaria do time francês nas últimas horas.
Até pouco tempo atrás tudo parecia bem.
O que mudou?
Para entender precisamos voltar no tempo.
Vem comigo.
No início de janeiro, Magnussen teve uma reunião com a Renault em Enstone.
Kevin foi acompanhado do seu principal patrocinador (Bestseller).
A princípio, a conversa seria para tornar o jovem dinamarquês piloto reserva
da Renault.
Não só isso.
O time francês abriu a possibilidade de Magnussen se tornar titular no próximo
ano.
Uma oferta tentadora.
Mas que deve ter causado desconfiança em Kevin por seu histórico recente
com a McLaren.
Poucos dias depois houve outra reunião entre as partes.
E a conversa mudou.
Abriu-se a possibilidade de titularidade para Magnussen, caso o piloto
dinamarquês conseguisse aumentar a proposta com seu apoiador.
Notem amigos que as tratativas sempre envolveram muito dinheiro.
Não se iludam.
Talento está em segundo lugar por aqui.
Valores?
Algo em torno de 7,5 milhões de euros.
Pouco tempo depois, Maldonado tomou conhecimento da negociação.
E comunicou tudo a PDVSA.
Uma das parcelas de patrocínio venezuelano estava atrasada.
(uma coisa comum que já havia acontecido em anos anteriores)
Justamente neste ponto a Renault e a petrolífera venezuelana sentaram na mesa
para tratar do rompimento do contrato.
Nunca houve possibilidade de retorno.
Digo isso apesar de haver alternativas (outras estatais) no caso da Renault
querer contar com os serviços de Pastor.
Dessa maneira a Renault vai alinhar com o estreante Jolyon Palmer e Kevin
Magnussen.
Dois pilotos pagantes, que fique claro.
Mas quais seriam os motivos por trás da fabricante francesa apressadamente
abrir mão do valioso contrato com a PDVSA?
São duas as razões.
A primeira é a empresa de petróleo francesa Total.
Com a saída da PDVSA, a carenagem amarela da Renault ganhará vários
espaços vazios para patrocinadores.
E a Total deverá explorar essas brechas para aumentar sua participação.
Diferente da PDVSA que derramava 40 milhões de euros na Lotus, a Total
colocava apenas 3 milhões de euros por ano.
Esse montante deverá aumentar significativamente, assim como o aparecimento
do nome Total nos carros da dupla Magnussen / Palmer.
A segunda razão é poder.
Apesar de ter vendido o controle da Lotus para a Renault, a Genii Capital ainda
continuou com uma participação na escuderia.
Mas a venda se deu contando com o aporte financeiro da PDVSA.
Com o rompimento, a Genni Capital terá que honrar os valores perdidos.
A pressão financeira para que haja um desligamento dos antigos donos subiu.
Com a manobra, a Renault ganhou ainda mais poder e quem sabe 100% de
controle sobre o time.
Interessante.
O plano original da PDVSA era permanecer na Fórmula 1 até 2019.
Mostrando a força de Caracas.
Com Pastor, claro.
A recente crise da Venezuela e a chegada da Renault puseram uma pedra
sobre tal objetivo.
Li muitas críticas duras sobre Maldonado.
Sobre como ele não merecia estar na categoria máxima do automobilismo e
que estava ali somente pelo dinheiro.
As pessoas esquecem que Pastor foi campeão da GP2 de forma absoluta.
E que foi cobiçado por diversas equipes da categoria máxima do automobilismo
bem antes desse título acontecer.
Quando testou pela Minardi em 2004, Pastor foi elogiado pelo lendário Giancarlo.
Minardi (conhecido descobridor de talentos) o queria em suas fileiras.
Entretanto quando outras escuderias (com mais recursos técnicos) sondaram
Maldonado, se desmanchou qualquer possibilidade disso acontecer.
Muitos ficaram surpresos quando Pastor venceu aquele GP da Espanha em 2012.
(de forma magistral, diga-se de passagem)
Porém Giancarlo Minardi não era um deles.
Outro que elogia Pastor é Xevi Pujolar, que foi engenheiro de pista do venezuelano
na Williams.
"Ele sempre foi subestimado.
Entretanto ele é rápido, se dá bem com a equipe e tem sensibilidade para dizer
o que há com o carro."
Claro que a velocidade de Maldonado é inquestionável.
E é certo que existem deficiências também.
Grandes.
A falta de evolução, como ocorreu no caso de seu ex-companheiro de equipe
Romain Grosjean, é uma delas.
Faltou o amadurecimento para auto-preservação.
Ficou a imprevisibilidade.
Enxergo a passagem de Pastor pela Fórmula 1 como histórica e marcante.
Não apenas pela sua vitória.
Ou ainda por escrever seu nome entre os raros nove pilotos que conseguiram
subir no lugar mais alto do pódio desde a temporada de 2011.
(ano de estréia de Maldonado)
O que me impressiona é fato que o venezuelano salvou duas escuderias de irem
à falência.
A primeira foi a Williams.
Quando a Philips deixou de patrocinar o time de Grove em 2010, a situação
ficou mais do que no vermelho.
A chegada de Maldonado trazendo consigo a PDVSA mudou tudo.
Frank Williams aprendeu com os erros passados (BMW, Helwett Packard) e
preparou seu time para se tornar menos dependente de uma parceria única.
Abriu seu capital, passou a vender tecnologia em diversos setores e se diversificou
industrialmente.
O período em que a PDVSA derramou a prata foi essencial para que Frank
respirasse e alinhasse sua escuderia para o futuro.
Foram trés anos.
Para sobreviver.
Se a Williams não tivesse assinado com Pastor em 2011, ela nunca poderia ter
uma promessa como Valtteri Bottas, um motor da qualidade Mercedes e ainda
conseguir dois terceiros lugares consecutivos no Mundial de Construtores nas
últimas temporadas.
E melhor, poder sonhar novamente em vencer!
A segunda equipe que deve as calças a Pastor é a Lotus.
Maldonado chegou a colocar algo em torno de 80 milhões de euros nas mãos
da Genii Capital durante as duas últimas temporadas.
Mesmo período em que Gerard Lopez (cabeça da Genii) passou a diminuir
seus investimentos na Fórmula 1.
Bernie Ecclestone ficou surpreso ao ver a Lotus viva por tanto tempo.
Como comentamos no início deste texto, o anúncio de Pastor para a temporada
de 2016 era apenas para valorizar a Lotus.
Afinal, colocar uma equipe na vitrine de vendas com um patrocinador como a
PDVSA deveria atrair um comprador com certeza.
E atraiu.
O cenário hoje mostra duas boas escuderias no grid graças a Pastor.
A Williams como a melhor equipe cliente e com a ambição de se tornar campeã
nos próximos anos.
E a Renault que retorna com seu time de fábrica almejando o topo e balançando
o mercado ao caçar abertamente pilotos como Fernando Alonso.
Por fim.
É uma pena perder uma figura como Maldonado.
Apaixonado, autêntico, irado.
Que desperta sentimentos reais.
Que faz acreditar que poderíamos também ter ganho uma corrida na categoria
máxima do automobilismo.
O que me vem a mente?
Mansell, Montoya...
Doidices.
Algo colorido entre tanto branco, prata e preto.
Um latino.
Genuíno.
Imperfeito.
Como definiu, na mosca, Pino.
"Ele dirige um fórmula 1 como se tivesse acabado de roubá-lo!"
Ruim?
Incompreendido?
Bom?
Quem somos nós para julgar?
Aquele que nunca errou ao volante, que atire a primeira pedra!